Como lidar com o medo infantil

Depois das fases do terror noturno e da ansiedade da separação, a Julia não tinha mais apresentado nenhum tipo de temor, até que na Semana do Folclore da escola, quando foram apresentadas às crianças as criaturas místicas como o Saci Pererê, a Mula sem Cabeça, Bicho Papão, Curupira, etc. Mesmo que na escola as professoras tenham explicado que essas criaturas não existem de verdade, ela passou a falar muito a respeito do assunto e perguntava o tempo todo se eles realmente “moravam só dentro dos livros”, como disseram na escola. O fato é que a Semana do Folclore despertou a fase do medo de criaturas sobrenaturais, desencadeando uma série e reações que não esperávamos, como pesadelos, medo de sair de casa, crises de choro e recusa de ir para a escola.

Passada a Semana do Folclore, achamos que a fase do medo tinha acabado, mas na verdade, estava só começando. A Julia passou a transferir o medo das figuras folclóricas para outros personagens. No final de semana resolvemos assistir um filme infantil junto com ela e escolhemos O Gato de Cartola (The Cat in the Hat), baseado no livro do escritor norte-americano Theodor Seuss Geisel (Dr. Seuss). Escolhi esse filme porque sei que a Julia adora gatos e tinha certeza de que ela iria se divertir, mas não foi o que aconteceu. Nas cenas iniciais do filme, quando o gato aparece e começa a perseguir as crianças, ela ficou tão aterrorizada a ponto de ter uma crise de choro. Mesmo que o Gato de Cartola não seja ruim, a cena da perseguição levou à associação com as figuras como o Bicho Papão, Lobo mau, entre outras. Imediatamente nós tiramos o filme pra consolá-la. Essa foi uma noite agitada, em que ela acordou várias vezes chorando, em estado de pânico.

Nós nunca tínhamos passado por essa situação e ficamos muito desorientados. Lemos vários artigos sobre o medo infantil para entender melhor essa fase e conseguir agir da maneira certa, para ajudá-la a superar o medo. Na segunda-feira conversamos com as professoras da escola para pedir que nos ajudassem a trabalhar isso.

Vários dias se passaram depois da Semana do Folclore e a Julia ainda dá sinais de medo, pede colo o tempo todo, pede pra fechar as janelas para não entrar nenhum “visitante indesejado” e às vezes ainda tem um pouco de medo de sair de casa e encontrar alguma criatura assustadora ao voltar.

A primeira orientação que nós recebemos é que isso é totalmente normal. Na fase da primeira infância, a criança ainda não consegue distinguir o que é real e o que é imaginário, por isso o medo que ela sente é real e precisa ser levado a sério. A criança pode ficar por algum tempo obcecada por aquilo que a aterroriza e o isso pode durar dias, semanas ou até meses, depende de cada criança e de como ela é orientada.

Educadores e psicólogos mais conservadores acham que o medo que a criança tem dessas criaturas seja positivo, para que a criança aprenda a vivenciar as suas emoções. Na minha opinião, cada coisa deve vir a seu tempo, pois uma criança de 3 ou 4 anos não está preparada para separar a realidade da fantasia. Alguns pais negam ou evitam falar sobre os temores de seus filhos, para evitar críticas e julgamentos. Esse tabu acaba alimentando a falsa crença de que as crianças são capazes de lidar com assustadoras desde cedo e que não há mal nenhum em contá-las. Mas vou deixar para falar mais sobre isso em outra ocasião. O objetivo desse post é dar dicas bem práticas para os que os pais possam ajudar a criança a superar essa fase.

Mesmo que muitos digam que isso é pura bobagem, nós nos preocupamos seriamente com o desenvolvimento emocional saudável da nossa filha. Para ajudar a Julia a encarar o medo, usamos algumas estratégias que têm funcionado até agora. As dicas a seguir podem ser de grande ajuda se você também está passando por essa fase com o seu filho.

O medo em cada fase da infância

Cada fase da infância apresenta alguns tipos específicos de medo:

0  a 12 meses – medo de lugares e pessoas estranhas

2 a 3 anos – medo de ser abandonado

2 a 4 anos – medo de escuro, de barulhos e de dormir sozinho

4 a 6 anos – medo de monstros, bruxas, fantasmas e outras criaturas sobrenaturais

5 a 8 anos – medo de coisas reais, como violência urbana, por exemplo.

Levar o medo a sério

O conselhos dos psicólogos é unânime: os medos da criança deve ser levados a sério, mesmo que pareçam bobos ou irracionais, porque para a criança o que a assusta é real. A atitude de rir ou fizer piada quando a criança está assustada, não vai ajudar muito na situação, pelo contrário, vai deixar a criança com a sensação de desamparo. Também não adiante dizer pra criança que não há motivos para ela ficar com medo, pois isso pode ter o efeito contrário e ela achar que o adulto não está interessado em ajudá-la.

Tudo o que a criança precisa é do apoio de alguém que escute o que ela tem pra dizer e tente entender o motivo do medo. Conversar com a criança sobre o medo dela é a melhor forma de entender o que a assusta.  Além disso é importante explicar que todos nós temos medo de algo, mas que devemos aprender a enfrentar os nossos medos.

Explicações racionais

A cada fase da criança ela faz novas descobertas e observa mais o mundo à sua volta. Quando ela se depara com coisas desconhecidas que ela não compreende, surgem os medos. Nas situações em que a criança tem medo de alguma coisa concreta, é mais fácil fazê-la perder o medo, dando uma explicação racional. Nós devemos ajudar a criança a entender as coisas racionalizando e uma vez que o mistério é resolvido, o medo desaparece.

A Julia tinha muito medo que os brinquedos fossem sugados pelo aspirador de pó, mas depois que mostramos à ela que a abertura do aspirador é muito pequena para passar um brinquedo, ela ficou aliviada. Também explicamos o aspirador foi feito só para aspirar a poeira e mesmo que uma coisa pequena seja sugada, ela não desaparece, mas fica “guardada” dentro dele e pode ser retirada de lá. Assim, ela entendeu racionalmente como o aparelho funcionava e superou o medo.

Outro medo que ela tinha era do barulho dos fogos de artifício. Para superar esse medo, explicamos que os fogos servem para comemorar alguma coisa e fomos ver com ela o show pirotécnico na festa de Réveillon na praia. Como ela adora praia e festa, acabou fazendo uma associação positiva com os fogos, se divertindo muito e esquecendo totalmente o medo.

Racionalizar coisas concretas é muito fácil, o desafio chega mesmo quando a criança entra na fase de ter medo de coisas sobrenaturais e abstratas. Essa é a fase atual que estamos vivenciando e aprendendo a cada dia. Na tentativa de ajudar a criança, vale à pena testar várias estratégias, até conseguir descobrir algo que funcione, afinal cada criança reage de uma maneira diferente.

Dos três aos cinco anos a criança começa a ter medo dos personagens dos desenhos animados, de filmes ou dos livros. Nessa fase a criança já consegue simbolizar, ou seja, brincar de faz-de-conta, mas não consegue discernir entre o que é real e o que é imaginário.

Quando a criança entra na fase de ter medo de coisas abstratas, que é o nosso caso atual, a melhor maneira é entrar com ela no mundo imaginário. Livros e filmes que desmistificam o medo, podem ser de grande ajuda  e eu deixo abaixo dois títulos que selecionamos para ajudar a superar essa fase.

 

Entrando no mundo da fantasia

A melhor maneira de apoiar a criança é enfrentando o medo junto com ela. Uma sugestão muito boa que funcionou com a gente foi eleger um “guarda-costas” para proteger a criança quando ela estiver com medo. No nosso caso, como a Julia adora elefantes, “promovemos” o seu elefantinho de pelúcia à guardião do apartamento, que não deixa nenhuma criatura estranha entrar. Contamos à ela que descobrimos que o todas as criaturas assustadoras, têm muito medo de elefantes e quando vêem um, fogem para bem longe e nunca mais voltam.

Para a nossa surpresa, a história que inventamos funcionou muito bem e a Julia ficou bem mais tranquila, depois de supostamente descobrir o ponto fraco dos vilões, o que aparentemente deu à ela sensação de poder e controle sobre a causa do seu medo. Nesse caso, o elefante de pelúcia, por ser um brinquedo de estimação que transmite confiança e conforto, ajudou a diminuir a ansiedade.

Cada criança tem medos diferentes e por meio de tentativa e erro, os pais podem encontrar algo que funcione para combater o medo do filho, para isso é preciso entender esse medo e descobrir o que mais transmite confiança à criança.

Não alimentar o medo

Quando vemos o nosso filho com medo, a primeira reação é preocupação. Mas temos que ter cuidado com as nossas próprias reações, porque se a criança perceber a ansiedade dos pais ela pode se sentir ainda mais insegura. Quando começamos a entender melhor essa fase do medo, percebemos que a gente precisava mostrar para a Julia que tínhamos controle da situação, para transmitir segurança, disfarçando a nossa própria preocupação.

Mas não há problema nenhum em confessar à criança que também temos medo de alguma coisa, mas devemos dar o exemplo e mostrar que apesar de ter medo, nós precisamos enfrentá-lo.

Pode ser que para evitar o medo, a primeira solução que vem à nossa cabeça é eliminar qualquer coisa que possa assustar a criança. Mas também temos que ter cuidado para não exagerar nisso, afinal, a ideia é ensinar a criança a superar os seus medos. Tudo bem evitar assistir a um filme que a criança tem medo, mas não podemos eliminar tudo que possa ser assustador para proteger a criança, se não, ela nunca vai aprender a enfrentar seus temores. É importante ensinar à criança que ela precisa aos poucos aprender a se defender sozinha, pois nem sempre estaremos por perto para protegê-la.

O que podemos dizer é que para superar os temores da criança, não existe receita. Só você que conhece bem seu filho e sabe o que o perturba, pode encontrar uma solução. Afinal, a maternidade/paternidade é exatamente isso, um exercício de paciência e perseverança regado a muito amor.

Espero que tenha gostado desse post! Se você já passou ou está passando por essa experiência com seu filho, compartilhe a sua história nos comentários.

Esse port foi útil pra você? Então compartilhe para outros pais!

 

 

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