Lembranças da minha mãe

O mês de novembro é sempre muito difícil para mim, porque foi o mês em que tive que dar adeus à minha mãe. Nunca nos ensinaram como lidar com o sofrimento. A dor da perda chega de repente, nos desestabiliza e machuca por dentro. Primeiro vem uma dor enorme com raiva e revolta. Depois uma tristeza infinita. Agora um grande vazio, um buraco sem fim que nada nem ninguém pode preencher.

Aos poucos, vamos recolhendo cada pedaço para nos reconstruirmos novamente, sem perceber que este processo é o nosso maior aprendizado de vida.
Se eu pudesse dizer alguma coisa à minha mãe, eu agradeceria por todos os momentos bons, pelos dias perfeitos que passamos juntas. Posso lembrar de cada dia, cada manhã, cada tarde…cuidando dos cabelos, fazendo as unhas, costurando, vendo nossas novelas, passeando, vendo vitrines…
Alguns dos mais belos pores-do-sol nós vimos juntas na beira-mar, admirando a natureza. A nossa amizade é o que ficou de mais precioso para mim, um de seus presentes especiais, como a vida. Sim, porque sou parte de dela e me orgulho disso, assim como sou parte do homem que ela tanto amou e protegeu como um anjo da guarda, a vida toda.
Ganhei dela o melhor presente que se pode ganhar de alguém, a VIDA, um presente que jamais poderia retribuir. Além disso ainda ganhei o amor e a amizade, duas pedras preciosas que ninguém ganha facilmente.

Ninguém está imune à perda, o luto é algo que todos nós sofremos alguma vez na vida. Confesso que eu não soube lidar bem com esse a perda, cheguei no auge na minha ansiedade e demorei muito pra me reconstruir. Cada pessoa deve encontrar a sua própria maneira de lidar com a dor, para encontrar alívio, força e capacidade de levantar-se novamente.

O luto é algo que cada pessoa enfrenta sozinha. Ninguém pode chorar por nós, reorganizar nossos pensamentos e aliviar a nossa dor. Reconhecer a minha dor e me permitir sofrer, me ajudou a ser mais flexível e a me adaptar. Pra isso, eu precisei me isolar pra reorganizar tudo na minha cabeça e na minha vida.

Depois de um ano de amadurecimento, encontrei o meu equilíbrio e a minha força na maternidade. Na maternidade, aprendi a cultivar a felicidade e a viver mais intensamente cada momento. Com a Julia do meu lado o tempo todo é impossível se sentir triste. A energia e a alegria dela encheram a minha vida de felicidade, esperança e amor.
Ainda faço muitas coisas pensando na minha mãe, penso nas qualidades que sempre admirei nela e que quero ensinar para a minha filha, como a generosidade.
Da minha mãe eu herdei também a minha profissão. Eu cresci vendo-a costurar e tenho boas recordações do cheiro do tecido novo, o barulho da tesoura cortando e tantos detalhes do mundo da costura que me encantavam. Minha mãe sempre dizia orgulhosa, que eu fui além dela, afinal, me tornei estilista. Eu ficava muito feliz por fazê-la feliz pelas minhas conquistas. A influência da minha mãe foi responsável pelo que eu sou hoje. A garra dela, a coragem e a vontade de conseguir os objetivos foram a maior marca da personalidade dela Para mim ela não se foi, porque estará comigo todos os dias da minha vida, nas minhas lembranças.

 

“Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos”.
Antoine Saint-Exupéry

 

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