Maternidade e vida profissional – um dilema feminino


Ao longo da história, as mulheres têm sido discriminadas sob vários aspectos, foram marginalizadas, subjugadas e vistas como um ser inferior. O papel atribuído à mulher sempre foi de cuidar dos filhos, da casa e cozinhar, enquanto o homem trabalha para dar sustento financeiro. As mulheres não tinham muita opção, a não ser se casar, ter filhos e cuidar da casa. Com o tempo, as mulheres foram conquistando espaço no mercado de trabalho, mas o mercado de trabalho não é exatamente um  lugar acolhedor para as mulheres. Muitas mulheres que desejam ser mães, adiam a gravidez em nome da carreira, ou pior, são obrigadas a disfarçar ou camuflar os seus sentimentos para não perderem oportunidades profissionais.

As mulheres redefiniram os seus papeis diante da sociedade e construíram novos valores, deixaram de ser apenas mulheres do lar e lutaram pela conquista do seu espaço. Mas acabaram assumindo múltiplas identidades, a de mãe, de esposa, de dona de casa e de profissional. Um dos principais desafios enfrentado pelas mulheres é conciliar carreira e família. De qualquer forma, as mulheres precisam se anular, desistir de sonhos, adiar projetos, só porque a sociedade não as acolhe como mulheres, mães de fato ou mães em potencial. Um anúncio de gravidez de uma funcionária nem sempre é recebido de maneira positiva no mundo corporativo.

Para consolidar sua posição no mercado, a mulher tem deixado, cada vez mais, projetos pessoais como a maternidade. A mulher se torna mãe passa a ter menos chances de conseguir uma promoção e de se recolocar no mercado depois de ter o filho, mesmo que tenha um bom currículo. Aí, a mulher se vê diante do dilema de continuar no mercado de trabalho ou abraçar de vez a maternidade, adiando as ambições profissionais. Mas na verdade, o mercado de trabalho não dá muitas opções para profissionais que são mães. Não importa a sua profissão, não importa a sua área de formação ou o seu grau de instrução. Muitas mulheres capacitadas – universitárias, pós-graduandas, mestres, doutoras – quando têm filhos, se deparam com questões culturais do ambiente de trabalho e são vítima do preconceito, enfrentando muitas barreiras. Eu também senti isso.

O empreendedorismo aparece como uma boa opção para as mulheres que querem se reposicionar profissionalmente. Não é à toa que esse movimento está tão popular, principalmente na internet. Com relação ao empreendedorismo materno, também já se construiu muitos mitos na cabeça das pessoas. Hoje se fala em mães empreendedoras como se fossem super mulheres com uma tendência natural para gerência de negócios, rumo ao sucesso. Mas não é bem assim. Para empreender, qualquer pessoa tem que ter o mínimo de conhecimento de uma área e em algum momento vão precisar de algum tipo de suporte, se quiserem crescer. Isso é trabalho duro e muita organização. Aquelas imagens romantizadas de mulheres trabalhando no seu notebook enquanto amamentam o seu bebê, não passam de estereótipos. Na verdade, trabalhar em casa pode ser tão ou mais difícil do que trabalhar fora. Claro, que você está perto do seu filho, e isso é ótimo. Mas você precisa ter o dobro de organização e planejamento para alcançar algum resultado. Muito provavelmente o seu negócio só vai decolar depois de um ou dois anos, quando o seu filho já estiver mais independente. Não quero com isso desencorajar nenhuma mãe a empreender, mas temos que ter uma ideia muito clara do que significa isso.

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Uma pesquisa realizada em 2015 pelo The Work & Family Show, verificou que cerca de três quartos (80%) das mulheres se sente culpada por voltar a trabalhar fora depois de ter filho. Segundo a mesma pesquisa, mais de 35% das mulheres revelou não ter a ajuda ou a compreensão do empregador com relação  à difícil transição quando se tornam mães trabalhadoras. Existe ainda a preocupação relativa à possibilidade de discriminação por parte dos patrões, que dão menos responsabilidades para funcionárias que são mães e delegam a estas menos projetos relevantes para a sua carreira.

Durante muito tempo, foquei na minha vida profissional e trabalhava como louca. Mas depois que a minha mãe morreu, comecei a pensar o que eu estava fazendo da minha vida. Eu sempre desejei ser mãe e quando me deparei com a fragilidade da vida, resolvi que aquela era a hora. Mas a questão de continuar a trabalhar fora ou participar ativamente da vida da minha filha só foi aparecer na minha cabeça, depois que a Julia nasceu. Eu realmente acreditava no mito da mulher super eficiente, que é mãe e profissional, que trabalha, viaja, cuida do filho e passa tempo com o marido, sem nenhum conflito. Mas isso é o que diz o senso comum, é o que a sociedade e o mercado de trabalho quer que a gente acredite. A mulher deve ser capaz de acumular vários papéis, sem quetionamentos. Mas acabei percebendo que o que leva a maioria das mulheres a isso é a necessidade e não o desejo de ser super mulheres. Ser mãe é tão desafiador do que  qualquer profissão, afinal, trata-se de cuidar e aducar uma criança. Ter que optar entre ser mãe ou profissional é uma decisão muito difícil e muito injusta também.

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Depois de um curto período de licença maternidade a mulher tem que voltar ao trabalho, como se nada tivesse mudado em sua vida. O mercado espera que a mulher saiba separar a vida profissional da vida pessoal, mas isso é a maior das ilusões, porque ninguém pode se dividir dessa forma. A saída encontrada pelas famílias é terceirizar a criação dos filhos,  contratando uma babá ou colocando em uma creche. Durante o primeiro ano da Julia, eu fui mãe em tempo integral por opção. Depois, comecei a cogitar a ideia de voltar a trabalhar fora e comecei a pesquisar as creches. Percebi que a maioria das creches já oferecem horários extendidos de sete da manhã às sete da noite, para mães e pais que trabalham o dia todo. Tem até o que algumas chamam de “hotelzinho”, quando os pais precisam viajar ou deixar os filhos fora do horário comercial. Comecei a me questionar se vale à pena ter filhos e passar o dia inteiro longe deles. Eu simplesmente não me conformo com isso.

Como se não bastasse, essa história de maternidade ainda tem outro lado, o social. Uma mãe que resolve renunciar ao mercado de trabalho para ficar com seu filho sofrem preconceito de amigos, parentes e outras mulheres que continuavam em seus empregos. Esse é o pior lado da maternidade que ninguém conta. A mulher, apesar de trabalhar muito o dia todo em casa, sente culpa por não estar em um emprego formal, como se o trabalho que ela faz em casa fosse inútil e dispensável. Por mais que essa mãe trabalhe, ela nunca recebe reconhecimento e é vista como desocupada, como se estivesse de férias.

As mães que continuam a trabalhar fora, vivem em conflito e as mães que se dedicam à maternidade, têm vontade de voltar ao trabalho, mas muitas vezes, não têm oportunidades. Por isso muitas mulheres abrem pequenos negócios para conciliar uma atividade profissional com a criação filhos. Mas nem todas as mães são empreendedoras e essas ficam sem opção. As mães trabalhadoras continuam hoje em dia a sentir dificuldade em encontrar um equilíbrio saudável entre trabalho e vida, recaindo sobre elas as principais responsabilidades com a criação e aducação dos filhos. O fato é que ainda há um longo caminho pela frente e muitas coisas a serem conquistadas por nós mulheres. O primeiro passo é essa tomada de consciência, de que somos fortes, somos importantes e essenciais para nossas famílias e para a sociedade, mas não somos autosuficientes. Precisamos de apoio, precisamos de políticas favoráveis para o nosso crescimento humano e profissional.

O que você pensa sobre a volta da mulher ao trabalho após a maternidade? Qual seria a solução para chegar a um ponto de equilíbrio?

 

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