A importância da educação para o consumo

A educação para o consumo é um assunto muito abordado e de extrema importância. Eu demorei muito pra escrever esse post, porque eu tinha muitas dúvidas sobre o assunto e confesso que por muito tempo não tinha a menor ideia de como educaria a Julia para ser uma consumidora consciente no futuro. Quando a criança é muito pequena, não nos preocupamos com essa questão, mas à medida em que ela cresce e assimila cada vez mais os nossos hábitos, percebemos a necessidade de dar uma orientação. A educação para o consumo deve começar desde os primeiros anos de vida e a única forma de fazer isso é dando um bom exemplo. Afinal, uma criança educada em um ambiente consumista tem mais chances de ser consumista e vice versa.

Todos nós precisamos consumir itens de primeira necessidade, mas o consumismo é uma ideologia baseada em ter sempre mais. O desejo de consumo domina a pessoa e se torna incontrolável. O hábito de consumir compulsivamente coisas das quais não precisamos se tornou uma das características culturais mais marcantes da sociedade atual.

 

Necessidade e desejo

Quando se fala em necessidade e desejo, até para um adulto, muitas vezes é difícil distinguir uma coisa da outra, quanto mais para uma criança. Uma criança pode entender que ter um determinado objeto é uma  necessidade  real, porque aquele objeto pode representar um meio de ela se inserir em um grupo.  Se a criança se sente aceita porque possui alguma coisa que todos têm e se sente bem com isso, então, para ela isso representa uma necessidade. A presença dos pais e o diálogo são essenciais para ajudar a criança a amadurecer e chegar à compreensão de que ninguém deve desejar uma coisa material para ser aceito por outras pessoas.

A maioria de nós já fez uma compra por impulso, sem ter pensado racionalmente antes de comprar. Isso porque a publicidade estuda o comportamento humano e detecta as motivações que leva uma pessoa a consumir. Isso é muito injusto para nós consumidores, que na correria do dia a dia, nem sempre prestamos atenção ao que nos motiva a fazer uma coisa. Se fizermos uma auto análise honesta, podemos diferenciar o que realmente necessitamos e o que apenas desejamos. Basta pensar nos sentimentos que nos move a comprar algo ou planejar uma compra. Quando se trata de uma necessidade, a falta desse objeto atrapalha o nosso dia a dia e depois que conseguimos comprá-lo, temos um sentimento de satisfação. Quando se trata de um mero desejo, buscamos desculpas para justificar a nós mesmos essa compra e quando adquirimos o objeto do desejo, temos um sentimento de vazio. Claro que não há problema nenhum em fazer uma compra para satisfazer um desejo de vez em quando. O problema é a freqüência com que consumismos por mero desejo. Precisamos ficar atentos aos nossos hábitos de consumo, para não cairmos nas armadilhas da publicidade.

 

 

Publicidade Infantil

Na cultura do consumismo, todos adotam o mesmo padrão de comportamento, e é claro, um desejo incessante de consumir. As pessoas acabam assumindo um mesmo estilo de vida, sem se questionar se aquilo é o que realmente querem fazer. Todos nós, adultos e crianças, estamos expostos às ações de marketing. Mas para as crianças isso é especialmente perigoso, porque o adulto pode desenvolver um senso crítico e filtrar essas informações. As propagandas pregam códigos de comportamento e valores que são disseminados pelas indústrias de bens, serviços e entretenimento. Os personagens fictícios ou reais do cinema e TV, atletas famosos, astros da música e outras celebridades, se tornam formadores de opinião e influenciam o público infantil. Esses personagens aparecem nos mais variados tipos de produtos destinados às crianças.  É papel dos pais filtrar um pouco essa exposição e orientar os filhos para também criar um senso crítico.

Na nossa sociedade o consumo é a regra e muitas pessoas acham normal possuir muito mais coisas do que necessitam, em nome do status. As propagandas associam aos produtos um valor muito maior do que estes realmente têm e quem possui estes produtos é considerado uma pessoa melhor em algum aspecto. As pessoas correm atrás dessa ideologia inconcientemente e levam as crianças junto. Na idolatria do consumo é preciso ganhar sempre mais, porque é preciso ter sempre mais. Essa ansiedade causa competição e cria sentimentos de inveja, tristeza e depressão.

Para o mercado, a criança é um consumidor em formação, que exerce forte influência nas decisões de compra da família. A criança ainda é imatura pra compreender as relações de consumo, por isso mesmo é o “alvo” mais fácil e sofre um verdadeiro bombardeio publicitário.

Segundo dados do Instituto Alana, já foi comprovado que essa publicidade pode levar as crianças a desenvolver hábitos prejudiciais ao bem-estar e ao desenvolvimento saudável, como obesidade infantil, erotização precoce, adultização da infância, violência, estresse familiar, diminuição das brincadeiras e consumo precoce de bebidas alcoólicas e tabaco.

O problema do consumismo infantil é mais grave e profundo do que se imagina e em muitos casos foge ao controle dos próprios pais. Na maioria das vezes se transfere a responsabilidade para a família, sem considerar que a criança é assediada pela puplicidade em todos os ambientes que frequenta, inclusive na escola. Pode-se dizer que esse é um problema de ordem ética, econômica e social.

 

A nossa experiência

O problema da maioria das cidades é a carência de lugares públicos destinados ao lazer infantil. Muitas vezes essa falta de opção leva as famílias a locais fechados em busca de lazer. Foi por causa dessa carência, que na época de chuva, resolvemos levar a Julia para brincar algumas vezes no parquinho de um shoping. Depois disso ela começou a ter uma fixação em ir ao shoping e ficava cobrando isso contantemente. Ela tinha mais ou menos 2 anos e meio e na época, achamos aquilo natural para uma criança da idade dela, afinal, era um ambiente divertido com muitos brinquedos, onde ela podia interagir com outras crianças.

A nossa preocupação com o consumismo infantil começou quando ela aprendeu a dizer a palavra comprar  e passou a falar com freqüência que queria comprar algo, “vamos comprar pipoca”, vamos comprar brinquedo”, vamos comprar sorvete”. Para nós, isso foi o primeiro indício de que ela estava relacionando o lazer ao consumo e soou como um sinal de alerta pra gente. Uma criança pode facilmente confundir o consumo com diversão, mas somos nós, pais, que devemos ajudar a criança a entender a diferença entre consumo e diversão.

Embora fazer compras possa vir a ser um programa divertido, sair para comprar alguma coisa é diferente de sair para se divertir em um parque, por exemplo. Depois disso, resolvemos reduzir as idas ao shoping para ocasiões de extrema necessidade, quando realmente precisarmos fazer uma compra específica. O problema do shoping é que tudo apela para o consumo, tudo o que está nele está sendo vendido e o que é oferecido gratuitamente está sendo padrocinado por alguma marca.

Mas não tem como isolar totalmente uma criança das atividades quotidianas da família e como a criança age por imitação, ela quer fazer tudo o que os adultos fazem. No nosso caso, na maioria das vezes, é impossível para nós, fazer uma compra sem levar a Julia junto. Hoje ela tem 3 anos e já quer participar de tudo. No supermercado era muito difícil, porque ela queria pegar os produtos das prateleiras e quando não deixávamos, ela fazia birra.

Como não temos como ir ao supermercado sem ela, resolvemos envolvê-la nessa atividade e fazer disso uma oportunidade para a educação.  Resolvemos fazer uma espécie de ritual antes de sair de casa, checando com ela os armários e a geladeira, para ver o que está faltando e que precisa ser comprado. Nos preocupamos em ensiná-la que devemos comprar o que precisamos e nem sempre podemos comprar tudo o que desejamos. Ela adorou a nova experiência e foi a primeira vez em muito tempo, que conseguimos fazer as compras no supermercado sem ter que lidar com uma birra.

Nos supermercados, as crianças são atraídas por produtos com personagens infantis e embalagens chamativas e com a Julia não é diferente. O que mais nos preocupa em relação à alimentação, é que a maioria dos alimentos para crianças, por incrível que pareça, são os menos saudáveis, com altos teores de sódio, gorduras trans e saturadas e açúcar. A Julia já está acostumada a uma alimentação saudável e nós nunca compramos esses alimentos infantis. Sei que ela tem vontade quando vê as embalagens coloridas com personagens, mas ela já sabe que aquilo não é permitido. Nós simplesmente dizemos que nós não compramos essa marca e ela até agora tem aceitado sem resistência. Ela costuma pegar e olhar as embalagens, depois devolve para a prateleira e diz “A Julinha não come issso, não é mamãe?” Sei que mais tarde, talvez a gente precise de argumentos mais fortes para convencê-la, porque ela já vai ter a influência de outras crianças na escola. Mas educar não é uma tarefa fácil, o importante é que a gente consiga manter o mesmo discurso sempre.

 

De onde vem o dinheiro?

De onde vem o dinheiro? Essa é uma boa pergunta para fazer para as crianças e ajudá-las a entender isso desde cedo. Crianças pequenas podem acreditar que o dinheiro é ilimitado e que não precisamos fazer nada para tê-lo. Por isso precisamos explicar de onde vem o dinheiro, que temos que trabalhar para receber um salário e que este não é ilimitado. É fundamental explicar para elas que, tanto o caixa eletrônico quanto os cartões, “guardam” o dinheiro que ganhamos trabalhando. Além disso é preciso ensinar que os produtos têm valores diferentes e pode ser que tenhamos que esperar algum tempo para conseguir comprar algo. Tudo isso tem que ser explicado de forma muito simples.

Sempre dizemos para a Julia que ganhamos dinheiro trabalhando e que o dinheiro pode acabar se a gente comprar muitas coisas. Procuramos falar com uma linguagem simples e inventar uma brincadeira para explicar na prática o que estamos dizendo. Ela sempre brinca de fazer compras no supermercado e aproveitamos a brincadeira para dar noção de valores.

 

Filtrando a publicidade

Aqui nós filtramos bastante as propagandas. Há mais de 2 anos, por pura falta de interesse da nossa parte, não assistimos TV aberta. Resolvemos ter só assinatura de serviços de streaming de vídeos, que tem a vantagem de oferecer um catálogo de filmes e séries, que a gente assiste quando quer. Esses serviços oferecem a opção de bloqueio para os pais, que podem criar um usuário com permissão apenas para conteúdo infantil.

Na internet, nós usamos uma extensão filtradora de propagandas para o navegador, que serve para remover todas as propagandas de todos os sites. Desde que começamos a usar essa extensão, nós recuperamos o controle da internet e não nos deparamos mais com aqueles banners e vídeos de propaganda enquanto navegamos na internet. É uma excelente opção para os pais e recomendo. Além de fazer o navegador ficar mais rápido, ajuda bastante na questão de segurança.

A criança ainda não tem maturidade para entender questões muito complicadas como o consumo, mas assimila tudo muito rápido. Se os pais não estiverem presentes, podem não perceber que o filho está desenvolvendo conceitos distorcidos de consumo. Por outro lado, as crianças respondem muito bem quando conversamos com ela e valorizamos a sua opinião. Sempre é possível chegar a um meio termo e entrar em acordos. Dentro das possibilidades, podemos satisfazer a alguns de seus desejos, mas estabelecer limites pode ser determinante. Quem sabe dar algum brinquedo ou outro produto do personagem preferido. É importante sempre repetir para a criança que o mais importante não é o que se tem e que as pessoas não precisam ter as mesmas coisas.  Sempre terá algo que não temos e que não precisamos ter e isso não nos torna inferiores a ninguém. Aos poucos e com paciência, podemos preparar a criança para ser uma consumidora consciente no futuro.

A criança é por natureza questionadora, criativa e tem a capacidade de pensar de maneiras diferentes. Se isso for preservado, ela sempre terá essa capacidade de questionar o mundo com um olhar crítico. A melhor maneira de fazer isso é sermos nós mesmos questionadores e críticos. Se quisermos que nossos filhos sejam consumidores conscientes, temos que constantemente rever os nossos conceitos, refletir honestamente sobre o nosso próprio comportamento e se preciso, fazer um esforço para adquirir novos hábitos. Fazer uma análise crítica da nossa própria situação financeira e hábitos de consumo é o primeiro passo para dar um bom exemplo.

 

Nossas metas

Confesso que às vezes me sinto um pouco desamparada com relação a alguns aspectos da educação da Julia, porque algumas coisas não dependem só de nós, pais e mães. Não existem muitos projetos educativos para apoiar as famílias e os que existem não são muito divulgados, apesar de ser fantásticos (veja links no final do post). Tenho pesquisado e lido bastante sobre educação infantil. Tudo o que temos feito ultimamente é baseado em projetos maravilhosos que dão orientações dirigidas a pais e educadores, com o objetivo de combater o consumismo infantil.

Esse post não tem a pretensão de fornecer fórmulas ou métodos educacionais infalíveis, mesmo porque a educação de uma criança é construida ao longo dos anos do seu desenvolvimento. Mas a nossa experiência pode acrescentar à sua experiência e vice versa, para que possamos criar uma cultura de não consumismo e dar uma infância mais livre para nossos filhos. Abaixo, listei algumas metas que decidimos estabelecer na educação da Julia. Algumas, nós já estamos praticando, outras iremos pôr em prática quando ela estiver um pouco maior. Espero que no futuro possamos olhar para trás e ter orgulho de ter educado bem os nossos filhos para que sejam cidadãos consciente e éticos. Espero que possamos trocar experiências e enriquecer ainda mais esse debate. Deixe a sua opinião ou relate a sua experiência. O seu comentário será muito bem-vindo!

  1. Falar da importância de não desperdiçar e cuidar do dinheiro.
  2. Ensinr a controlar o consumo por impulso, mostrando como elaborar uma lista de compras e obedecê-la.
  3. Explicar que tipo de trabalho realizamos para ajudará-la a estabelecer relação entre ganho de dinheiro e os limites de seu uso.
  4. Mostrar as diferenças entre coisas “caras” e “baratas” em diferentes ambientes (padaria, farmácia, papelaria etc).
  5. Assumir as próprias deficiências com relação ao dinheiro, usar o bom senso e não dar lições de moral.
  6. Deixar a criança participar do orçamento doméstico, incentivando-a a dar sugestões sobre modos de reduzir despesas.
  7. Ajudar a criança a tomar decisões e fazer escolhas, mesmo que em pequena escala.
  8. Ensinar que cometer erros é normal, mas devemos aprender com eles.
  9. Reforçar a idéia de que a responsabilidade social e a ética devem estar sempre presentes no ganho e no uso do dinheiro.

 

 

Leia também:

6 dicas práticas para ensinar consumo consciente para nossos filhos

Assista o vídeo no nosso canal do youtube:

Julia aprendendo a fazer compras no supermercado – Educando para o consumo consciente

 

Saiba mais:

http://institutoalana.org.br

http://www.commercialfreechildhood.org/about-ccfc

 

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