O que são os terrible twos? Como lidar com essa fase?

Você já ouviu falar em “terrible twos“? Essa fase que ocorre entre dois e três anos, quando as crianças podem demonstrar intolerância e impaciência, reagindo negativamente à situações que antes não causavam problemas. A dificuldade que a criança tem de lidar com as frustrações é natural no processo de desenvolvimento. Essa fase ficou conhecida como terrible twos ou  “terríveis dois anos”. O que acontece nesse período é que as crianças desejam que suas vontades sejam realizadas imediatamente. Se não são atendidas, choram ou gritam, jogam objetos, se jogam no chão, entre outras atitudes. Uma criança que antes era brincalhona e carinhosa na maior parte do tempo, pode se transformar numa criança irritada e impaciente. Mas tudo isso é absolutamente normal e não deve deixar os pais preocupados.

O lado da criança

Essa é uma fase em que a criança já desenvolveu bastante a coordenação motora, já realiza muitas atividades e tarefas diárias sozinha e isso desperta o anseio pela independência. Nessa idade a criança já fala, mas ainda tem alguma dificuldade de organizar pensamentos. Essa é exatamente a transição em que ela está deixando de ser bebê e está se tornando criança, o que pode causar frustração, pois ela já se acha apta a fazer muitas coisas, mas ainda não consegue a permissão dos pais. Por isso essa fase também é conhecida como a adolescência dos bebês.

Na fase dos terrible twos existe o que os especialistas chamam de negativismo infantil, que nada mais é do que a criança se recusar a fazer aquilo que você pede. Mas as crianças não agem assim porque estão sendo “mal criadas” ou para irritar e desafiar os pais. Elas passam a  agir assim quando descobrem que são indivíduos e querem experimentar sua habilidade de tomar decisões. Você pode até explicar uma coisa à criança e ainda assim ela não fazer o que você pede, só porque quer tomar suas próprias decisões. Crianças dão escândalo porque não entendem o motivo de os pais negarem algo e não têm maturidade para lidar com a frustração. A birra é a forma encontrada pela criança para dizer que ela está muito frustrada.

O lado dos pais

Muitas vezes as crianças reagem desta forma em locais públicos, na frente de outras pessoas. Nessas situações, os pais podem se sentir constrangidos, temer o julgamento das pessoas e duvidar de si próprios, questionando se estão sabendo educar os seus filhos. Grande parte dos adultos foi criada com uma disciplina rígida, onde eram orientados a obedecer os pais e não eram estimuladas a se expressar. Nessas gerações, o castigo físico e as ameaças eram comuns e aceitáveis e desde muito cedo as crianças eram coagidas pelo medo.

Por isso muitos pais sentem vergonha do comportamento dos filhos e acabam ficando irritados e reagindo com ameças e violência, seguindo o mesmo modelo de educação que receberam. Essa reação é compreensível, porém, nos dias de hoje não é mais aceitável. Muitos pais se cobram por acreditar que devem ser capazes de controlar o comportamento das crianças. Mas é preciso racionalizar e saber que existem outras formas de lidar com a birra infantil e que não devem satisfação a ninguém com relação à educação de seus filhos. É importante deixar claro para as outras pessoas, que apesar de a maioria de nós ter recebido uma educação autoritária, não somos abrigados a repetir os mesmos padrões. Isso deve ser visto como um desafio positivo e uma oportunidade de amadurecermos emocionalmente, aprendendo a manter a calma e o controle da situação, para assim passarmos confiança e conquistar o respeito de nossos filhos.

Como lidar com birras e escândalos
A disciplina positiva é a forma mais pacífica de lidar com as crises de birra. Esta abordagem segue uma linha educativa que vai contra causar medo, vergonha e humilhação à criança. Em vez de bater, os pais usam técnicas como distrair as crianças e atrair a sua atenção para outras atividades, para que elas deixem de lado aquele comportamento. Os problemas são resolvidos com diálogo, para que a dignidade de todos seja preservada.
Na aplicação da disciplina positiva, se a criança fizer uma birra em público,  devemos nos concentrar em dar carinho e orientações claras. Não adianta ficar muito preocupado com o que outras pessoas pensam.  Se os pais gritarem ou baterem na criança no momento da birra, ela ficará ainda mais frustrada e com medo. A melhor coisa a fazer é esperar e ficar perto para que a criança se sinta segura. Se a criança permitir, os pais devem abraçá-la com carinho. Quando a criança estiver mais calma e a birra tiver passado, conversar com a criança sobre o que aconteceu abre uma oportunidade para o diálogo e a criança sente que é compreendida pelos pais. Esse é um bom momento para ensiná-la que é normal sentir tristeza, raiva e frustração e que nós também nos sentimos frustrados às vezes, mas que devemos aprender a controlar isso.  O mais importante é que a criança se sinta amada, compreendida e acolhida.
A Dra. Joan Durrant é psicóloga e professora na Universidade de Manitoba. A sua pesquisa enfoca as dimensões psicológicas, culturais, legais e de direitos humanos de punição corporal de crianças no Canadá e em todo o mundo. Ela foi a principal pesquisadora e co-autora da Declaração Conjunta canadense sobre o castigo físico contra crianças e jovens e co-editora  da publicação Eliminating Corporal Punishment: The Way Forward to Constructive Discipline (UNESCO).
Segundo a Dra Durrant, nessa fase, podemos oferecer escolhas às crianças para que elas se sintam tomando decisões. “Você prefere comer cenoura ou pepino?” Quando a criança escolhe uma destas opções, seu objetivo de curto-prazo é cumprido, que é fazê-la comer um vegetal no almoço. Mas temos que ter cuidado para dar escolhas realistas para a criança.  Nunca devemos oferecer uma opção e depois não permitir. Quando a criança percebe que tem liberdade para fazer escolhas e se expressar, ela vai aos poucos entendendo que há outras maneiras de lidar com as situações. À medida em que aprende a se comunicar melhor, ela passa a fazer acordos com os pais, discutindo as possibilidades e negociando, até chegar a um consenso. Essa será uma habilidade valiosa no futuro, para uma convivência harmoniosa, tanto na família, quanto fora de casa.  A comunicação faz parte das relações entre as pessoas. Nas famílias a comunicação adquire um papel importante e  criança se sentirá mais segura e amada numa família onde todos têm liberdade para se expressar.
A nossa experiência
No nosso caso, a Julia sempre foi uma criança muito bem humorada e carinhosa. Confesso que pensei que nunca iríamos passar por essa fase. Mas por volta de 2 anos e 8 meses ela começou a presentar um comportamento diferente. O nosso sentimento foi de surpresa, um pouco de desorientação e também de culpa. “O que fizemos de errado pra ela agir assim?” Mas resolvemos pensar no que tinha mudado na nossa rotina que pudesse estar refletindo no comportamento dela. Logo percebemos que tínhamos feito muitas coisas fora da nossa rotina, diferente do que costumávamos fazer.
Nessa época, Elton estava retornando ao trabalho depois de um mês de férias. Durante as férias nós aproveitamos para ficar juntos, passear e nos divertir. Foi como se nós tivéssemos tido vários finais de semana consecutivos. Na última semana de férias, tomamos o cuidado de voltar à rotina, para não causar um choque, mas mesmo assim a Julia sentiu. Claro que ela estava adorando ter nós dois por perto o dia todo e  fazer programas diferentes no meio da semana. Mas de repente tudo voltou à antiga rotina e ela ficou frustrada. As birras começaram quando tínhamos que encerrar um passeio e voltar pra casa. Ela chorava, se jogava no chão e não permitia ser levada nos braços. Depois ela passou a ficar de mal humor toda segunda-feira, quando o Elton saída para trabalhar e ficava ressentida por isso. Nós sofremos junto com ela, era de partir o coração ver aquele beicinho segurando o choro, toda vez que o pai ia trabalhar. Percebemos que a rotina é muito importante para a criança e a faz se sentir segura, porque ela sabe o que vai acontecer. Quando a rotina muda de repente, a criança fica ansiosa e agitada.
Tomamos os cuidado de fazer programas mais calmos no domingo e o Elton passou a ficar mais tempo com ela na segunda-feira antes de sair para trabalhar. Sempre conversamos com ela e dizemos qual é o dia da semana e quantos dias faltam para o final de semana. Aos poucos as birras foram se tornado menos frequentes. De vez em quando a birra volta, mas passa rápido e logo ela esquece. Talvez ela ainda não tenha muita noção do tempo, mas sabe que durante a semana o papai vai trabalhar e no final de semana ele passa mais tempo com a gente. Nas próximas férias, ela já estará na escola e com certeza será mais fácil explicar sobre isso. Para lidar com essa fase, acima de tudo é importante compreender os terrible twos como uma fase transitória que faz parte do desenvolvimento da criança. O afeto e o respeito devem guiar os pais não só nessa, mas em todas as fases da criança. Não podemos perder de vista o amor que sentimos por nossos filhos, afinal, eles são crianças e precisam do nosso apoio e cuidado para crescer e se desenvolver plenamente.
Pessoalmente eu acho esse termo terrible twos um pouco forte demais para essa fase dos dois aos três anos, que é tão maravilhosa, cheia de descobertas e muito divertida. Muitos pais temem a chegada dessa fase, como se o adulto fosse uma vítima da criança, mas não é verdade. Toda mudança traz insegurança e porque não dizer, um pouco de sofrimento. Nessa fase em que a criança está experimentando tantas mudanças e conquistas, ela também sofre, até alcançar um certo nível de maturidade para lidar com frustrações. Os pais devem estar sempre ao lado da criança, apoiando, orientando e guiando com muito carinho e empatia. Não podemos esquecer que essa época não é feita só de birras, mas de muita diversão e aventura. O melhor que temos a fazer é aproveitar a companhia deles e construir uma sólida e duradoura amizade.

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 Fontes consultadas:

Cartilha da ONG Promundo Pelo Fim dos Castigos Físicos e Humilhantes

J. Durrant e R. Ensom. Physical punishment of children: lessons from 20 years of research

DURRANT, Joan E. Positive discipline: what it is and how to do it? Save the Children Sweden e Global Initiative to End All Corporal Punishment of Children, 2007

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