Qual o efeito da palmada?

Hoje vou tocar em um assunto polêmico, a palmada. Afinal, será que a palmada tem algum valor educativo?

Segundo a cartilha da ONG Promundo, a palmada está qualificada como um castigo físico e humilhante. Muitas pessoas ainda comentam que levaram palmada na infância e não se sentem prejudicadas. Porém, esse argumento me parece exatamente o efeito que essas palmadas tiveram sobre essas pessoas, levando-as a achar que a violência contra uma criança é uma coisa normal e aceitável e que o castigo físico é a única maneira de resolver conflitos entre pais e filhos.

Para começar essa discussão devemos primeiro entender o que são castigos físicos e humilhantes. Abaixo, transcrevi na íntegra um trecho da cartilha “Pelo Fim dos Castigos Físicos e Humilhantes” (pág, 10) da ONG Promundo, para nos ajudar a entender.

O que são castigos físicos e humilhantes?
Castigos físicos e humilhantes são formas de violência aplicada por uma pessoa adulta com a
intenção de disciplinar a criança, para corrigir ou modificar uma conduta indesejável. É o uso
da força causando dor física ou emocional à criança. É uma forma de violência contra a criança e uma violação de seu direito à dignidade e integridade física.
O castigo humilhante pode ser exercido de várias formas como abusar verbalmente, ridicularizar,
isolar ou ignorar a criança.
Castigo físico é um ato realizado por um adulto com a intenção de causar dor ou desconforto físico em uma criança. Pode deixar ou não marcas visíveis no corpo. O motivo que costuma levar os pais ou responsável a aplicar um castigo físico é o de corrigir um comportamento da criança e impedir que ela o repita.
Existem muitas formas de castigos físicos: palmadas, tapas, beliscões, chineladas, paulada,
varada, amarrar a criança, deixar de joelhos, socar, esmurrar ou bater, são alguns exemplos de castigos físicos. A força pode ser aplicada de muitas formas no corpo da criança. Pode ser com a mão – tapa na cabeça, na nádega, puxão de orelha, beliscão -, com o uso de um objeto – régua, cinto, chinelo, fio – ou mesmo sem bater na criança. É o caso dos castigos em que o adulto coloca a criança em posições desconfortáveis e situações humilhantes, como por exemplo, obrigar a criança a manter-se de joelhos sobre grãos, reter excreções, ingerir alimentos ou substâncias estragadas ou de sabor aversivo, entre outros.

O fato é que a violência doméstica contra crianças no Brasil, atinge índices assustadores. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) já conta com dispositivos legais que regulam a agressão física contra crianças e adolescentes. De acordo com a Lei, a criança e o adolescente têm o direito de ser educados sem o uso de castigo físico ou de tratamento degradante (como ameaças ou humilhações), como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, seja pelos familiares ou por qualquer pessoa responsável por deles.

Muitos programas e ações vêm sendo desenvolvidos para combater a violência contra crianças e adolescentes. A “Biblioteca Digital Crescer sem Violência” reúne um conjunto de materiais que têm por objetivo contribuir para a implementação de políticas e programas de proteção integral de crianças e adolescentes com seus direitos ameaçados ou violados. O site é uma parceria entre o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), a Associação dos Pesquisadores dos Núcleos de Estudos e Pesquisa sobre a Criança e o Adolescente (NECA) e o Instituto dos Direitos da Criança e do Adolescente (INDICA).

 

Efeito Psicológicos

O hábito de agredir fisicamente uma criança como forma de punição pode provocar sentimentos de inferioridade, baixa autoestima e submissão.

As pesquisas consolidadas no trabalho de J. Durrant e R. Ensom (“Physical punishment of children: lessons from 20 years of research”) dos últimos vinte anos sobre esse tema, mostram que a punição física  aumenta do nível de agressividade infantil e pode ter implicações na vida adulta, relacionadas a depressão, ansiedade e desajuste psicológico.

A palmada e outros tipos de castigo representam uma violência, a criança sente dor e o que causa dor, não pode ser relacionado com amor e carinho. Na maioria das vezes, a criança se sente agredida e não consegue relacionar o motivo da violência ao que fez. Ela sente medo e isso pode gerar traumas, que são impossíveis de prever, porque há crianças mais tolerante e outras mais sensíveis.

Testar os limites dos pais é um comportamento típico que faz parte do aprendizado da convivência em família. Embora não seja fácil, os adultos devem lidar com as manhas com carinho e desenvolver a capacidade de dialogar e explicar as coisas para a criança sem violência. A criança, por menor que seja, tem muito mais capacidade de compreensão do que se imagina. Além disso, a criança passa a obedecer os pais não pelo respeito, mas por medo, o que gera dificuldades no futuro de ter autodisciplina e respeito por outras pessoas.

Quando o adulto bate no filho, ele está reconhecendo que ficou impotente diante da atitude da criança. Mostra claramente que perdeu o controle de si mesmo e a agressão passa a ser a única maneira de manter a autoridade. A criança vai aprender que a força é um meio aceitável de conseguir o que quer, o que pode refletir como um exemplo e levar a criança a bater nos amiguinhos quando surgir um conflito. Nesse caso, adulto não tem moral para dizer que isso é errado e as referências da criança ficam confusas. A criança pode sentir raiva e rancor do adulto, após a agressão, o que prejudica o relacionamento e gera distanciamento entre pais e filhos.

A Cartilha da ONG Promundo “Pelo Fim dos Castigos Físicos e Humilhantes” (pág. 11) também lista os efeitos que os castigos físicos e humilhantes podem causar nas crianças e nos adultos:

 

Quais os efeitos dos castigos físicos e humilhantes?

Nas crianças

• comprometem a sua auto-estima, gerando um sentimento de pouca valia e expectativas negativas ao seu próprio respeito.

• ensina-lhes a serem vítimas. Ao contrário de uma crença bastante disseminada de que os castigos fazem as crianças “mais fortes” porque as “prepara para a vida”, sabemos que não apenas não as tornam mais fortes, mas as tornam mais vulneráveis a converterem-se repetidamente em vitimas em diferentes situações e relações.

• interferem em seu processo de aprendizagem e no desenvolvimento de sua inteligência, seus sentidos e emoções. • sentem solidão, tristeza e abandono.

• incorporam uma visão negativa das pessoas e da sociedade como um lugar ameaçador ao seu modo de ver a vida.

• criam uma barreira que impede ou dificulta a comunicação com seus pais, mães ou cuidadores e prejudica os vínculos emocionais estabelecidos entre eles.

• fazem sentir raiva e vontade de fugir de casa. • produzem mais violência. Ensinam que a vio-lência é um modo adequado de se resolver os problemas e conflitos.

• podem apresentar dificuldade de integração social.

• não aprendem a cooperar com as figuras de autoridade, aprendem somente a obedecer às normas ou a transgredi-las.

Nos adultos – pais, mães ou cuidadores

• podem produzir ansiedade e culpa, inclusive quando se considera correta a aplicação deste tipo de castigo.

• produzem mais violência. O uso dos castigos físicos e humilhantes aumenta a probabilidade de que os pais, mães ou cuidadores manifestem comportamentos violentos no futuro em outros contextos, com maior freqüência e intensidade.

• impedem ou dificultam a comunicação com as crianças e comprometem as relações familiares.

 

 

Disciplina Positiva

Como agir em situações em que as crianças tiram os pais do sério ou ultrapassam limites, como birras e escândalos em lugares públicos? A questão é colocar os limites claramente para as crianças antes que surjam conflitos. Tapas e palmadas não são capazes de corrigir as falhas na educação. O diálogo, a explicação de que certos comportamentos não são aceitáveis é mais eficiente em longo prazo. A violência física só vai estancar uma ação que provavelmente irá se repetir.

Substituir os tapas por gritos também não adianta. É um tipo de agressão verbal, por isso, tem praticamente o mesmo efeito da violência física. A alternativa é que os pais passem a usar a “disciplina positiva” que tem como conceito base “tratar os filhos como os pais gostariam de ser tratados. A disciplina positiva segue uma linha educativa que vai contra causar medo, vergonha e humilhação à criança. Em vez de bater, os pais usam técnicas como distrair as crianças e atrair a sua atenção para outras atividades, para que elas deixem de lado comportamento inadequado. Os problemas são resolvidos com diálogo, para que a dignidade de todos seja preservada. Os pais dão o exemplo (pois é com eles que as crianças aprendem), construindo relacionamentos de respeito dentro da família e ao se comunicar com outras pessoas.

Segundo Durrant*, o primeiro passo para a aplicação da disciplina positiva é a definição de objetivos de longo prazo para a educação dos filhos. Objetivos de longo prazo são as metas que os pais desejam atingir quando seus filhos estiverem grandes – e normalmente envolvem o cultivo de um bom caráter, ético, pacífico e amoroso. Objetivos de longo prazo podem entrar em conflito com objetivos de curto prazo, que correspondem àquilo que os pais desejam que seus filhos façam imediatamente. No entanto, o autor explica que pensar nas metas mais distantes é a forma mais inteligente de conduzir a educação das crianças no dia-a-dia.

Mas a disciplina positiva dá  trabalho, exige dedicação, empenho e maturidade emocional, por isso alguns pais não têm paciência para aplicá-la. Mudar o modo de reagir diante de birras e indisciplina não é fácil e como muitos pais foram educados em lares autoritários, parece mais fácil bater do que conversar. Mas manter o controle emocional e promover o diálogo desde cedo tem efeitos mais duradouros e contribui para uma um relacionamento mais saudável entre pais e filhos, na infância e adolescência. Aplicar a disciplina positiva pode ser um oportunidade para que os próprios pais melhorem o seu controle e maturidade emocional.

E você, o que acha do castigo físico? Você consegue aplicar a disciplina positiva com seu filho? Vamos trocar ideias e experiências sobre esse assunto? Fique à vontade para dar a sua opinião nos comentários.

 

Fontes consultadas:

Cartilha da ONG Promundo Pelo Fim dos Castigos Físicos e Humilhantes

J. Durrant e R. Ensom. Physical punishment of children: lessons from 20 years of research

DURRANT, Joan E. Positive discipline: what it is and how to do it? Save the Children Sweden e Global Initiative to End All Corporal Punishment of Children, 2007

 

Saiba mais:

Biblioteca Digital Crescer sem Violência

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