Uma reflexão sobre os contos de fadas

Os contos de fadas sempre fizeram parte do imaginário das pessoas e eram populares desde as civilizações antigas como Egito Antigo, Grécia, Roma, Índia, China e culturas do Norte da Europa. Através da narrativa oral se passava o aprendizado e os valores culturais para as novas gerações. Nesses contos, os perigos do mundo e os percalços da vida sempre foram muito presentes, em especial durante a Idade Média. Por isso os contos originais eram, na verdade bastante sangrentos e nada felizes, pois isso fazia parte do contexto social e cultural da época.

Justamente por esses contos terem sido tão populares durante a Idade Média, que o tema central das narrativas envolve reinados, príncipes, princesas, nobreza em geral, aldeias, entre outros. A influência dos traços culturais de folclores nórdicos, celtas e de crenças consideradas pagãs típicos das regiões do norte da Europa, são claramente percebidos nessas fábulas, tem a presença de feras, dragões, ogros, lobos, magos, gnomos, duendes, gigantes, fadas e bruxas.

Por ser transmitidos através da oralidade, os contos de fadas possuíam inúmeras versões para uma mesma estória, cada qual com um toque das crenças e experiências das pessoas que contavam. A partir do século XVII, Charles Perreault (1628 – 1703) realizou as primeiras coletâneas escritas dessas narrativas. Perreault viajou pela França inteira em busca dessas inúmeras versões de fábulas populares para criar sua coletânea, suprimindo as partes consideradas pagãs e acrescentando um teor mais fantástico. Mais tarde os irmãos Wilhelm e Jacob Grimm (1785 – 1863), fizeram um trabalho parecido na Alemanha.

Portanto, foram nesses dois países, França e Alemanha, que surgiram os originais famosos como Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, A Bela Adormecida, João e Maria, Branca de Neve e os Sete Anões e inúmeros outros contos conhecidos atualmente. Essas fábulas passaram a ser registradas nos livros e a trazer uma lição moral no final.

A comunidade científica, no início do século XIX,  direcionou sua atenção aos contos de fadas, fábulas, cantigas de roda, provérbios, lendas, entre outros materiais de tradição oral, o que resultou em inúmeros registros escritos da cultura popular. Na metade do século XX, com o advento do cinema americano,  foram feitas adaptações de alguns contos de fadas por Walt Disney. Ao contrário das estórias originais, os novos contos passaram a ser dirigidos para o público infantil. O registro visual mantém alguns elementos dos contos originais, porém, recebem uma roupagem mais lúdica e imaginativa.

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A Disney preservou o caráter romântico e de aventura e aumentou a polarização entre o bem e o mal. Os filmes produzidos para o público infantil tentam passar uma ideia de inocência, alegria e esperança, porém muitas das mensagens supostamente inocentes, numa análise mais aprofundada, podem se revelar  perturbadoras. Outro lado dos contos de princesas que ninguém questiona é que eles são recheados de mortes, vingança, bruxaria, traição, inveja e os mais sórdidos sentimentos humanos, disfarçados de uma aura encantada e colorida.

Assedio sexual

Um tema recorrente nos filmes da Disney envolve uma princesa adormecida que precisa ser despertada por um beijo de um príncipe muito bonito e rico. Vale ressaltar que o tal príncipe é um estranho, que  a princesa mal conhece. Esse estranho aproveita-se da sua inconsciência para beijá-la, o que caracteriza um assédio. Mas em Branca de Neve e Bela Adormecida, as princesas não se importam em ser beijadas por um estranho sem o seu consentimento e as duas casam-se com os seus príncipes após serem despertadas.

Exaltação ao status social

Nos contos, a hierarquia social está sempre em destaque e tanto os heróis quanto os vilões fazem parte da nobreza. Basta lembrar do enredo de “Cinderela” em que a protagonista consegue escapar de condições precárias de vida ao ser salva e casar com um príncipe rico que ela mal conhece. Em quase todos os contos, o “Príncipe Encantado” é um personagem valorizado pela sua riqueza e poder que supostamente pode fazer qualquer mulher viver feliz para sempre.

Feiura como sinônimo de maldade

O conceito de feiura está nitidamente associado ao mal caráter dos personagens e o principal antagonista é retratado sem atrativos físicos e fora dos padrões de beleza. As principais características das vilãs dos contos são: ser gorda (Úrsula em “A Pequena Sereia”), idade avançada (A mulher velha em “Branca de Neve”) ou extremamente feia (as irmãs feias em “Cinderela”). Os vilões, frequentemente são inseguros sobre sua aparência, capazes de fazer qualquer coisa para tornarem-se belos como os heróis e as princesas, como a vilã de “Branca de Neve”, que é obcecada por ser “a mais bela de todas elas”, não medindo esforços para alcançar tal objetivo. Se os pais não incentivarem os filhos a questionar e refletir sobre os contos, as crianças podem associar essas características com o mal e a acreditar que e que atratividade física é sinônimo de moralidade e felicidade.

Exaltação à beleza física

O conto “A Bela e a Fera” tenta passar a mensagem de que a “aparência não importa”. No entanto, essa mensagem se torna contraditória se refletirmos mais atentamente sobre estrutura do enredo. A Bela é uma mulher bonita e atraente, que percebe a bondade da fera escondida na sua feiura. No clímax, a besta se transforma de novo em um homem bonito que vive feliz para sempre com a Bela. Isso contradiz por completo a suposta mensagem do filme de que “aparência não importa”, se isso fosse verdade, a transformação não seria necessária. Em “O Corcunda de Notre Dame” o personagem principal também é feio e fisicamente deformado e se apaixina pela bela Esmeralda. No entanto, a mensagem é novamente distorcida quando o capitão Phoebus, um homem bonito e muito atraente, casa-se com Esmeralda, deixando óbvio que o protagonista não é digno dela por causa de sua feiura.

Ideal de beleza inatingível

Na maioria dos contos, as princesas são brancas, magras e têm cabelos perfeitos, segundo os padrões de beleza, características que são inatingíveis para muitas mulheres. Por ser extremamente belas, as princesas despertam ciúmes e sentimentos de vingança e sofrem mal tratos e até tentativas de assassinato. Todo o encantamento do mundo das princesas não tem nada em comum com a realidade das crianças. Nem sempre essas meninas têm as características da ficção, o que pode levar a sérias frustrações. O corpo feminino é idealizado como magro e esguio, sendo alvo de muitas críticas, que sugerem que as imagens tenham inspirado anorexia e distúrbios alimentares em crianças e adolescentes.

Polêmica em volta das princesas

O tema princesas é tão lucrativo que levou à criação da franquia “Princesas Disney” (Disney Princess) é uma franquia de mídia que pertence a Walt Disney Company, criada no fim da década de 1990 e lançada oficialmente em 2000 por Andy Mooney e composta por 11 personagens femininas de 11 diferentes filmes da Walt Disney Pictures/Pixar. Originalmente foi composta por Branca de Neve, Cinderela, Aurora (Bela Adormecida), Ariel (Pequena Sereia), Bela, Jasmine, Pocahontas e Mulan, Tiana, Rapunzel e Merida.

Para combater as críticas acerca dos aspectos negativos das  princesas clássicas, foi introduzido na franquia um novo modelo de princesa, menos passiva. Segundo a criadora da personagem, Brenda Chapman, “Merida foi criada para quebrar aquele molde”, uma princesa forte, confiante com características de uma garota real, com atributos e imperfeições. Mas a princesa Merida, de Valente foi motivo de muita discussão e polêmica, pois para poder se integrar na coleção Disney Princess, a personagem teria que ganhar algumas características, como uma cintura mais fina, cabelos menos rebeldes e seria um pouco mais sexualizada em comparação à versão da animação que levou o Oscar de 2012. Para resolver a polêmica, foi organizada uma petição pela Internet no site Change.org, com 200 mil assinaturas, para a Disney manter as características originais da personagem. Tanto a autora quanto o público comemoraram o fato de Merida não ter mantido o padrão de beleza das outras princesas e ter sido coroada como 11ª “Princesa Disney” em uma cerimônia no parque da Disney.

Merida é uma princesa  escocesa, filha da Elinor, que governa o reino ao lado do marido Fergus. A personagem é impetuosa, tem habilidade no tiro com arco, em luta de espadas e em corrida com seu cavalo, Angus. Com certeza é uma princesa bem fora dos padrões clássicos. Na minha opinião, ela está no outro extremo de padrão feminino. Mas pelo menos já foi uma quebra com o padrão perfeito de mulher, o que já é um avanço, embora a idéia de princesa frágil e delicada ainda seja predominante.

Não há mal nenhum em fantasiar e gostar de contos de fadas e princesas na infância. Pelo contrário, a fantasia e imaginação são fatores essenciais e importantes nessa fase da vida. O perigo está na forte influência que esses contos exercem no imaginário infantil, que pode levar a uma obediência cega a padrões morais duvidosos.  Nós não incentivamos a nossa filha de 2 anos de idade a gostar de princesas. Temos consciência de que quando ela começar a frequentar a escola, inevitavelmente ela vai ser influenciada por outras meninas e não pretendemos reprimir o seu interesse. Porém, pretendemos fazer com que ela aprenda a refletir sobre essas personagens e questionar as suas atitudes e valores.

Para enriquecer essa discussão, indico aqui um post interessantíssimo do blog “Não Pule da Janela”, escrito por Paola Rodrigues com o título “7 livros infantis para discutir estereótipos em contos de fadas”. No post Paola sugere uma lista de livros infantis que quebram com o esteriótipo dos contos de fadas clássicos, levando a uma reflexão para pais e filhos. Deixo aqui essas questões para serem refletidas. O que você acha? Dê a sua opinião nos comentários para enriquecer essa reflexão!

Leia também: O DESAFIO DE CRIAR UMA MENINA

 

Referências:

PEREZ, Luana Castro Alves. “História dos contos de fadas”; Brasil Escola. Disponível em <http://www.brasilescola.com/literatura/historia-dos-contos-fadas.htm>. Acesso em 30 de outubro de 2015.

http://revistacrescer.globo.com/Criancas/Comportamento/noticia/2015/03/o-desafio-de-educar-meninas.html

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