O desafio de criar uma menina

Eu sempre quis ter uma filha, mas nunca pensei no tipo de educação que eu gostaria de dar a ela. Depois que a Julia nasceu eu abri os olhos para algumas questões sobre as quais eu nunca tinha parado para pensar. O fato é que meninas ainda recebem uma educação diferenciada de meninos, seja pela repetição de padrões baseados na educação que recebemos de nossos pais, seja por imposição da sociedade.

O conceito de que toda mulher deve ser delicada, educada e doce é muito forte e mulheres determinadas, decididas que expressam as suas idéias, ainda são mal vistas pela sociedade. As mulheres têm ocupado espaços na sociedade nunca imaginados pelas gerações anteriores e as realizações e conquistas foram muitas dentro de algumas décadas. A expectativa da sociedade em relação às mulheres é muito alta, pois espera-se que sejam bem sucedidas profissionalmente, manter-se bonitas segundo os padrões de beleza impostos e ainda ser boas esposas e mães. A mulher ainda é responsabilizada na condução de uma infância saudável e feliz para seus filhos, enquanto muito pouco é exigido do pai. As mudanças do comportamento masculino tem seguido um ritmo bem mais lento, fazendo com que as mulheres acabem acumulando muitos papeis. Em pleno século XXI, os homens ainda reivindicam o direito de entrar nas salas de parto para ver o nascimento de seus filhos e alguns poucos dias para ficar ao lado de sua família após o nascimento da criança. A consequência disso são mulheres sobrecarregadas, com excesso de responsabilidades.

A distinção na educação de meninos e meninas já vem de longa data e parece que ainda não foi superada. Ainda são sugeridos modelos diferenciados de criança do sexo feminino e masculino, com um conjunto de comportamentos aceitáveis para cada um, tendo como modelos simbólicos a princesa, como uma sugestão de modelo feminino e o herói, como sugestão de modelo masculino. Ainda predomina na educação das meninas uma ênfase para o aprendizado atividades ditas femininas, para que a criança se encaixe nas expectativas sociais.  Isso se torna bem evidente quando observamos como a Indústria direciona brinquedos específicos para meninas como reproduções de objetos domésticos e estabelece rígidos padrões de cores para diferenciar os gêneros. Está claro que o preconceito está longe de ser superado.

Tem sido produzida uma vasta literatura que propõe fornecer instruções para a educação de meninos e meninas de uma forma distinta. Esses manuais sugerem princípios e regras para criar crianças felizes, com boa auto-estima, disciplinadas e inteligentes. Isso mais me parece manuais de adestramento de crianças e o que é pior, que distingue os gêneros masculino e feminino como se fossem duas espécies diferentes. Cada vez mais essas publicações ganham destaque e são vendidas como bestsellers. Tais livros dirigidos aos pais para a educção de crianças são encontrados com frequência nas livrarias, na categoria de auto-ajuda, o que sugere que criar filhos é um fardo, um problema a ser resolvido. O que me pergunto é porque são editadas obras específicas para cada gênero, quando se poderia tratar das mesmas questões relacionadas à educação infantil sem discriminação de sexos.

Na nossa sociedade, ainda são muito exaltadas as características biológicas para justificar supostas deficiências e comportamentos dos gêneros. Segundo Ana Gabriela Andriani, doutora em psicoterapia pela Unicamp, em entrevista concedida ao portal IG, as diferenças de comportamento entre meninos e meninas são muito mais culturais do que biológicas. Para ela, as relações familiares afetam o modo como a criança irá se comportar no ambiente em que vive. “Por exemplo, as crianças não nascem preferindo brincar de bola ou de casinha, o modo como os pais tratam cada gênero é que faz a maior diferença”. A partir desse raciocínio, não se justifica uma educação diferenciada para cada sexo. Para Ana Gabriela é preciso diminuir as marcas culturais na educação infantil e estimular ambos os sexos da mesma forma.

A infância é uma fase da vida que demanda proteção, cuidados e orientação. A questão central referente à educação infantil deveria girar em torno de respeitar a criança com todas as suas singularidades, fornecer apoio emocional, dar proteção e compreensão no intuito de criar adultos integros e felizes. Ao contrário disso, as transformações culturais e o advento da mídia vem mudando o significado da infância. Na mesma medida em que crescem movimentos por uma infância mais plena e livre, aumenta também a tendência de uma infância erotizada e consumista, que se espelha em modismos seguidos pelos adultos.

Numa sociedade predominantemente machista, o maior desafio para mães e pais de uma menina é ajudá-la a construir sua identidade sem a influência dos conceitos tradicionais. Ao invés de incutir o complexo de princesa nas meninas, os adultos deveriam estar empenhados em proporcionar-lhes experiências que estimulem o seu desenvolvimento e enriqueçam a sua formação humana. Deveriam fazer muitas coisas ao contrário do que aprenderam, renunciando a padrões ultrapassados, vencer a tentação de projetar nas meninas os seus próprios desejos e dar a essas meninas a chance de apenas ser quem elas desejarem.

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5 Comentários em "O desafio de criar uma menina"

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Ricardo Baltazar
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Tenho uma filha, hoje com 7 anos. Eu e a mãe dela a criamos como a criança que se nos apresenta, com suas dificuldades e suas aptidões. Por vezes nos frustramos com a pouca demonstração de carinho advinda dela, pois não é de ficar parada recebendo ou fazendo cafuné, – (Coisa que pai e mãe adoram né) – por outras nos surpreendemos com a facilidade, suavidade e fruição com que se exprime ou com a naturalidade com que encara nossa separação. Ana sempre foi protagonista da sua vida, abandonando a chupeta com um ano e pouco e as fraldas com… Read more »
Luana
Visitante

Quanta gratidão por encontrar esse espaço. Espero uma menina, uma futura mulher, não uma princesa. Espero conseguir superar os valores machistas tão presentes em mim ainda para que possa ajudá-la a se tornar o que ela desejar, sem restrições apenas pelo fato de ser mulher. Espero crescer como.mulher junto com minha filha.

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