Falta de contato com a natureza faz mal para crianças?

Quando a Julia tinha mais ou menos 3 meses precisamos nos mudar do apartamento onde morávamos e fomos para um bairro onde não havia muitas opções de lazer. Haviam três praças, duas das quais eram muito longe e precisava ir de carro ou de ônibus, mesmo assim nós íamos sempre. A que ficava mais perto de casa não era muito freqüentada por famíliase era bem estranha. Eu cresci em um bairro onde tinha muitas áreas verdes, podíamos andar a pé livremente, ir de bicicleta para a escola e praticar esportes em locais seguros. Durante a minha gravidez, eu caminhava todo dia e quando a Julia começou a passear, nós saíamos todo dia à tardinha para dar uma volta ao ar livre. Eu não estava acostumada a ficar dentro de casa o dia todo, já estava enlouquecendo, pois a única opção que tínhamos perto de casa era um shopping, mas pra mim,não conta como opção de lazer. Passei a pensar muito sobre o assunto e até fiquei preocupada, então comecei a pesquisar sobre o impacto de passar tanto tempo longe de ambientes ao ar livre. Foi aí que descobri que esse assunto também interessa e preocupa outras pessoas pelo mundo.

Você já ouviu falar em transtorno da falta de contato com a Natureza? Este termo (Nature Deficit Disorder), foi criado pelo escritor e jornalista norte-americano Richard Louv em seu livro Last Child in the Woods (A Última Criança nas Florestas), publicado em 2005. Ele se refere-se à tendência de as crianças terem cada vez menos contato com a natureza, que segundo ele, causa vários problemas de comportamento. Este trastorno ao qual se refere o escritor, não é ainda reconhecido pela medicina, nem chamou ainda atenção da classe médica.

Richard Louv passou 10 anos viajando por áreas rurais e urbanas dos EUA, entrevistando e conversando com pais e filhos. A sua pesquisa aponta para uma diminuição do número de visitas aos Parques Nacionais nos Estados Unidos e aumento do uso de meios eletrônicos por crianças. Para Louv, as famílias tem acesso restrito às áreas naturais e os aparelhos eletrônicos passaram a ser uma opção à falta de lazer. Outro fator importante para o distanciamento da natureza e diminuição dos passeios ao ar livre é o  medo da violência. Ele argumenta que a cobertura da mídia sensacionalista tem deixado os pais paranóicos e crianças assustadas. Isso faz com que a freqüencia dos passeios em áreas naturais diminua gradativamente. Essa cultura do medo acaba por favorecer a prática de esportes seguros com regras ao invés de brincadeiras criativas.

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Nos EUA e Europa, foram criadas escolas para suprir essa carência de atividades ao ar livre. São os chamados jardins da infância (Forest Kindergarden) ou escolas  na floresta (Forest Schools), que são escolas especiais onde as crianças brincam e aprendem no meio de uma mata preservada ou bosque. Cresce o número de pais adeptos do movimento Slow Parenting (pais sem pressa), que  enviam suas crianças para educação em ambientes naturais, ao invés de mantê-los dentro de casa.

O lema do movimento Slow Parenting (pais sem pressa) é “menos é mais”. Eles defendem uma infância com mais tempo para crescer, com menos atividades, menos pressa, menos pressão, menos expectativas. Com menos atividades programadas para o dia, as crianças podem explorar o mundo ao seu próprio ritmo e aprender com as experiências.  Esse movimento é o contrário da tendência atual, em que as crianças têm uma rotina cheia de atividades e são constantemente cobradas pelo seu desempenho no rendimento escolar, que visa o sucesso profissional futuro.

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Um grande problema da atualidade é a perda da paisagem natural nos bairros da cidade. Muitas reservas naturais têm acesso restrito  ou oferece risco de violência urbana como assaltos. A popularização dos aparelhos eletrônicos como computador, tablet, smartphones, videogames e televisão, passaram a ser atrativos para passar mais tempo dentro de casa.

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Efeitos da falta de contato com a natureza

• As crianças têm menos respeito ao ambiente natural, o que pode se transformar em um problema ainda maior no futuro. Segundo Richard Louv, “Um ritmo crescente nas últimas três décadas, aproximadamente, de uma rápida perda de contado das crianças com a natureza tem profundas implicações, não só para a saúde das gerações futuras, mas para a saúde da própria Terra.” Para o autor, os efeitos do transtorno da falta de contato com a natureza pode levar a primeira geração ao risco de ter uma expectativa de vida menor do que de seus pais.

• Desenvolver transtornos de atenção, transtornos de humor e depressão. “É um problema porque as crianças que não tiveram um contato com a natureza parecem mais propensas à depressão, ansiedade e problemas da falta de atenção”. A interação com a natureza, de acordo com um estudo da Universidade de Illinois,  reduz os sintomas dos transtornos da atenção e depressão em crianças.

• Notas mais baixas na escola também parecem estar relacionados com o transtorno da falta de contato com a natureza. Resultados de estudos realizados na Califórnia publicados  em artigo  na Orion Magazine em abril de 2007, indicou que na maior parte dos Estados Unidos, os estudantes das escolas que utilizam as salas de aula ao ar livre e outras formas de educação utilizando experiências com a natureza, apresentaram significativamente melhor desempenho escolar.

• Obesidade infantil tem se tornado um problema crescente no mundo. Ficar dentro de casa em atividades passivas influencia diretamente no ganho de peso das crianças e adolescentes. Segundo a National Environmental Education Foundation, cerca de 9 milhões de crianças (6-11 anos) estão com sobrepeso ou obesos. O Instituto de Medicina afirma que nos últimos 30 anos, a obesidade infantil mais do que duplicou para os adolescentes e mais do que triplicou para crianças de 6-11 anos.

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A ONG No Child Left Inside Coalition (Coalizão “Não deixe as crianças dentro de casa”) trabalha para levar as crianças para atividades ao ar livre e de aprendizagem ativa. A ONG está trabalhando para aprovar uma lei nos Estados Unidos que aumentaria a educação ambiental nas escolas. A ONG defende que o problema do transtorno da falta de contato com a natureza poderia ser amenizado “despertando o interesse do estudante para atividades ao ar livre” e estimulando-os a explorar o mundo natural.

Após um tempo morando em um bairro sem áreas verdes e com poucas opções de lazer, percebemos o quanto é importante proporcionar passeios ao ar livre para uma criança. A nossa preocupação foi aumentando à medida em que a Julia ia crescendo, por isso resolvemos mudar para um bairro que pudesse nos proporcionar mais liberdade e contato com a natureza. Porém, muitas famílias não tem como morar perto de áreas naturais. Nesse caso, pode-se programar passeios nos finais de semana para lugares da cidade que proporcionam isso. E no seu caso, você acha que o seu filho tem contato suficiente com a natureza? Que tal aproveitar e fazer um passeio ao ar livre em família?

Links:

http://www.cbf.org/ncli/landing

http://richardlouv.com/books/nature-principle/

 

Imagens autorizadas: Flickr

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