História da roupa infantil

Até o século XVI, as crianças eram vistas como “adultos em miniatura” A infância era concebida apenas como um percurso para a vida adulta, um ser inacabado.
No decorrer da história, aconteceram diversas transformações do pensamento social em relação à criança e começa a surgir na sociedade a idéia de infância. A criança passou a conquistar seu espaço social, graças a pesquisas de muitos estudiosos.

O Século XVIII, conhecido também como o Século das Luzes fez emergir a questão da infância. A criança passou a ser considerada um ser distinto dos adultos, a partir das suas necessidades e desejos específicos da infância. Foram estabelecidas singularidades, como espaços, regras e condutas a fim de preparar as crianças para ingressar no mundo adulto.

O vestuário infantil era sinônimo de controle e disciplina, submetendo a criança a roupas semelhante à de seus pais. Os filósofos que buscavam a construção de uma nova sociedade, pregavam a necessidade de roupas mais leves e com uma conotação infantil.
A Jean Jacques Rousseau, por volta de 1762, começou a combater a moda que não dava liberdade às crianças, teoria que tinha apoio de educadores, médicos e filósofos. Lentamente este movimento influenciou a adoção de tecidos leves, cores mais claras e a eliminação das armações das saias das meninas.

Vestuário infantil 1596
Vestuário infantil 1596

Até o século XIX os recém nascidos ainda eram enrolados em faixas de tecido que tinham o objetivo de aquecer o bebê e imobilizar para dar sustentação à
coluna vertebral. Estas faixas, presas por tecidos de linho ou cânhamo e só eram retiradas para fazer a troca de roupa, pois acreditava-se que os movimentos desordenados podiam prejudicar o recém nascido. No decorrer dos anos, alguns tipos de roupas infantis foram símbolos de moda.

Bebê envolvido em cueiro
Bebê envolvido em cueiro

A era vitoriana no Reino Unido foi o período do reinado da rainha Vitória, em meados do século XIX, de junho de 1837 a janeiro de 1901 e foi considerada um período de “culto ao bebê”. Foi um longo período de prosperidade e paz (Pax Britannica) para o povo britânico, com os lucros adquiridos a partir da expansão do Império Britânico no exterior e da consolidação da Revolução Industrial. A vestimenta das crianças refletia a prosperidade da classe média que passou a gastar mais. As crianças de a até 5 anos usavam longas batas, decoradas com babados e bordados.

Bata da Era Vitoriana - 1884
Bata da Era Vitoriana – 1884
Bata longa da Era Vitoriana - 1884
Bata longa da Era Vitoriana – 1884
Era-Vitoriana1905
Crianças pós Era Vitoriana -1905

 

Mais tarde, em em 1865, Lewis Carrol em seu livro Alice nos Pais das Maravilhas, sugeriu um traje para uma menina espirituosa e inteligente. A roupa de Alice era simples, leve e solta, com poucos acessórios, o que dava liberdade aos seus movimentos. Essa personagem serviu de inspiração para as meninas do século XX.

Alice
Livro Alice’s Adventures in Wonderland

 

Por volta de 1850, o então príncipe de Gales, futuro Eduardo VII a bordo do iate real, Victoria & Albert, usou o traje de marinheiro com calça branca, casaco azul marinho com gola quadrada, trabalhada com galões e uma boina. Para as meninas também havia uma versão da roupa com saias plissadas. Vestir as crianças de marinheiro virou moda na sociedade inglesa, que desejava ter um filho servindo à Marinha Britânica, a mais prestigiada do mundo desde o inicio do século XIX.

Traje de marinheiro
Eduardo VII com traje de marinheiro
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Versão feminina do traje de marinheiro

As escolas também lançaram estilos de roupas infantis com seus uniformes, como o do elitista Colégio de Eton, na Inglaterra, com um paletó curto de cor escura, de comprimento na altura da cintura, bem ajustado e usado sobre uma calça comprida cinza. A camisa branca, com uma gola dura e alta, era usada com uma gravata preta.

O traje conhecido como O Pequeno Lord foi lançado por volta de 1885, como roupa de criança exemplar, influenciado pelo personagem do livro O Pequeno Lord Fauntleroy de Frances Hogdson Burnett. Era composto por knicker e casaca em veludo preto, com gola e punhos em renda.

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Livro Little Lord Fauntleroy
Traje inspirado no Pequeno Lord Fauntleroy
Traje inspirado no Pequeno Lord Fauntleroy

Rousseau fez as primeiras tentativas para influenciar a forma de vestir das crianças e fez algumas conquistas nesse sentido. No entanto, os trajes de marinheiro, o conjunto Eton e o Pequeno Lord confrontavam com os princípios de usabilidade e não priorizavam a funcionalidade. A roupa infantil voltou a se assemelhavam aos trajes dos adultos e tinham implícito uma noção de disciplina e hierarquia.

Durante a Segunda Guerra Mundial (1914-1918), o vestuário infantil passou por sensíveis modificações e a tendência à redução e à simplificação esteve presente por 20 anos. O traje de marinheiro foi desaparecendo a partir de 1935 e conjunto Eton passou a ser usado apenas em solenidades como primeira comunhão e casamentos. Nessa época, os trajes militares e do escotismo, com seu uniforme de calças curtas, camisa com gola aberta e pulôver, passaram a influenciar a moda infantil.

Roupa militar - 1930
Roupa militar – 1930

Na Inglaterra e Estados Unidos, os trajes de esporte com mais coloridos aos poucos foram substituindo os uniformes rígidos do inicio do século. A partir de 1920, imitando os adultos, os meninos passaram a usar o knicker, uma espécie de calção muito curto no início, acima dos joelhos, se alongando até o tornozelo, no final dos anos de 1930.

No Brasil, essas mudanças demoraram um pouco mais para acontecer. Até os anos de 1920 as roupas infantis se assemelhavam às dos adultos. Os vestidos infantis ainda eram muito sofisticados. Da mesma forma, até 1930 os meninos seguiam as influências militares do pós-guerra.

Roupa infantil década de 1920
Roupa infantil década de 1920
Roupa infantil década de 1920
Roupa infantil década de 1920

Logo após o fim da Segunda Guerra, houve um retorno à vestimenta mais sofisticadas. O nível de vida das classes populares começou a crescer, no inicio dos anos de 1950 e os pais passaram a vestir as crianças com mais requinte. As roupas mais usadas eram conjuntos de veludo preto, camisas bordadas, gravatas de seda, vestidos de renda, anáguas de tule foram por alguns anos símbolos de elegância.

No decorrer da segunda metade do século XX, as roupas infantis sofisticadas que limitavam os movimentos das crianças, passaram a ser mais simples, proporcionando mais liberdade para brincar. A partir dos anos de 1960, a moda infantil passou por muitas transformações significativas. As chamadas vestimentas de aparato, também conhecidas como ‘roupas de domingo’, aos poucos foram desaparecendo. As roupas passaram a ser mais resistentes, menos enfeitadas e bem mais práticas. O jeans surgiu nesse período e passou a ser usado tanto para meninos, quanto para meninas, como uma espécie de uniforme.

Somente a partir de 1960 quando as roupas passaram a ser produzidas por segmentos –esporte, passeio e festa. A partir daí tipo de tecido e a modelagem mudavam de acordo com o tipo de roupa e a ocasião à qual era destinada.  Além disso, do ponto de vista estético, a roupa infantil passou a ser feita pensando nas necessidades da criança.

No decorrer dessas transformações, podemos observar um amadurecimento do pensamento social.  Podemos considerar a segunda metade do século XX como um período da legitimação do direito da criança, quando esta passou a conquistar seu reconhecimento na sociedade.  

 

Referências:

ARIÉS, P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Afiliada, 1981.      

HEYWOOD, Colin. Uma história da infância: da Idade Média à época
contemporânea. Porto Alegre: Artmed, 2004.                                                                                                                                      

Fonte das imagens:  Wikimedia Commons, Flickr