Moda infantil: uma questão de bom senso

O segmento de vestuário infantil é um mercado crescente no País. A comercialização de artigos para crianças é um dos ramos promissores dentro do varejo de moda. O mercado de roupas infantis cresce em média 6% ao ano, segundo a Associação Brasileira de Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).

Quando se trata de moda infantil, muitas vezes o apelo emocional fala mais alto do que o bom senso e a indústria de moda sabe disso. Hoje em dia, muitos pais, seguindo as tendências propostas pela indústria da moda infantil, veste as crianças como se fossem “pequenos adultos”. As mídias, de modo geral são atualmente fortes instrumentos de influência e manipulação na educação e construção de um mundo infantil que nada tem a ver com a infância, transformando as crianças em meras cópias em miniatura dos adultos. As roupas e calçados copiam o adulto, desconsiderando que a anatomia do corpo das crianças é diferente da anatomia do corpo de um adulto. A sociedade assiste a tudo isso como se fosse algo natural e muitos adultos se divertem fantasiando seus filhos como se fossem dessa forma.

Imagem editorial da revista Vogue Paris
Imagem editorial da revista Vogue Paris

Jean Jaques Rousseau escreveu “A infância é, também a idade do possível. Pode-se projetar sobre ela a esperança de mudança, de transformação social e renovação moral”. Na segunda metade do sec. XVIII, ele propôs uma nova visão da infância e mudanças na educação e na maneira de se vestir as crianças. Atualmente, na minha opinião, testemunhamos um retrocesso, pois a moda infantil está se assemelha à Idade Média, quando crianças se vestiam como adultos e eram incentivadas a adotar as atitudes de pessoas mais maduras.

Em tempos de combate à pedofilia e campanhas pelo direito à infância, grandes empresas veiculam campanhas inadequadas para o público infantil. Foi o caso da revista Vogue Paris em uma campanha de 2010, que trouxe um editorial com meninas maquiadas e vestidas como adultas fashionistas. Houve uma forte crítica sobre a tendência da moda em forçar as crianças a crescerem muito rápido. Mas essa tendência não está restrita somente a esse tipo de campanha. Muitas celebridades infanto-juvenis, como Willow Smith, Lourdes Maria (filha da Madonna), Noah Cyrus (irmã de Miley Cyrus), Suri Cruise e a blogueira Tavi Gevinson, embora muito jovens, já ganharam destaque no mundo da moda.

Imagem editorial da revista Vogue Paris
Imagem editorial da revista Vogue Paris
Imagem editorial da revista Vogue Paris
Imagem editorial da revista Vogue Paris
Imagem editorial da revista Vogue Paris
Imagem editorial da revista Vogue Paris

Só para dar um exemplo, Suri Cruise – filha de Tom Cruise e Katie Holmes, com 9 anos de idade foi eleita uma das 30 “mulheres” mais bem vestidas do mundo pela revista Glamour, na 21ª posição no ranking e desbancando grandes nomes como Sarah Jessica Parker, Jessica Alba e Nicole Ritchie.
Passar maquiagem antes de sair de casa, usar salto, pintar as unhas, usar roupas justas que esquentam e não dão movimento para brincar, são coisas que ja fazem parte da rotina de muitas meninas. O problema é que transformar uma criança em um produto da moda é bem recebido e aceitável para muitos adultos. Mas será que os adultos têm esse direito? Não caberia aos adultos a responsabilidade de proteger as crianças e garantir o seu direito à infância?

Suri Cruise
Suri Cruise

Por trás dessa realidade, é  inegável  que há um interesse econômico de educar as crianças a serem consumidores em potencial. As crianças estão sendo pressionadas a crescerem mais rápido, desconsiderando o seu processo de desenvolvimento, pois elas precisam de tempo para crescer no seu ritmo natural. O que se fala hoje a respeito da infância muitas vezes não condiz com a realidade das nossas crianças. É preciso resgatar a verdadeira infância, na qual há um mundo de fantasia, imaginação, criatividade e brincadeiras. Sobretudo a criança precisa de liberdade para se movimentar, correr, pular e as roupas devem acompanhar esse ritmo.