Maternidade e ansiedade

 

A maternidade  é diferente para cada mulher, cada uma com suas descobertas, crises e alegrias. Mas o que todas nós mulheres temos em comum, algumas mais outras menos, é a falta de orientação e apoio emocional durante a fase de gravidez a e puerpério. Todas as atenções se voltam para as providências materiais para o nascimento do bebê e na maioria das vezes o cuidado com o estado emocional da mãe é esquecido pela maioria das pessoas, até por aquelas mais próximas, o que pode desencadear um estado de ansiedade.

A maternidade é um marco na vida da mulher pois é vivenciada nos aspectos físicos, psicológicos, sociais e culturais. A gravidez e a maternidade, principalmente se desejada, leva a sentimentos de plenitude e pode ser uma experiência de retorno a si própria, o que a mulher a reavaliar e reestruturar a sua própria identidade, nessa fase da sua vida em que tudo muda.

Na nossa sociedade a maternidade é colocada como uma fase em que a mulher tem que estar feliz e radiante e há uma tendência a omitir os sentimentos . Na realidade, ao contrário do que mostra a publicidade e o senso comum, a gravidez, a maternidade e o parto são considerados eventos impulsionadores de stresse, afinal o corpo passa por muitas modificações hormonais. Ainda há um grande tabu com relação às alterações emocionais e psicológicas pelas quais passam as mulheres nesse período. A falta de informação e o preconceito privam muitas mulheres de viver plenamente a maternidade como um período  de emoções intensas e auto-conhecimento que poderia, ao invés de sofrimento, levar a um grande crescimento pessoal.

Segundo o psiquiatra Antonio Matos Fontana, “A melancolia da maternidade ou depressão pós-parto leve trata-se de um sentimento de tristeza. Ela não é considerada um transtorno patológico, e pode acometer de 50% a 80% das mulheres.”  Mas uma coisa tão natural e relativamente comum é encarada como um assunto proibido e as mulheres que passam por melancolia após o parto são muitas vezes vítimas de preconceito até mesmo por outras mulheres. Além da melancolia da maternidade, também há a  ansiedade puerperal, que pouco se ouve falar e algumas mulheres sofrem sem saber o que si passa por falta de informação e orientação.

Segundo a psicóloga Marisa de Abreu Alves, “ansiedade é um estado psicológico, onde prevalece a incerteza, aflição, angústia caracterizando-se por insegurança ou sentimento de que não conseguirá atingir suas metas”.  A ansiedade uma reação natural do ser humano que nos leva a agir em situações de perigo. O problema é quando a ansiedade se torna exagerada e se torna um transtorno. Nesse caso leva ao excesso de preocupação, excesso de cobrança, exigência, excesso de controle, medo e culpa. Em alguns casos a ansiedade, o estresse prolongado e grandes mudanças podem levar à despersonalização (DP) e desrealização (DR), que levam a uma sensação de distanciamento do mundo e um estranhamento de si próprio.

Segundo o autor britânico Paul David, “A despersonalização é em muitos casos um sub-produto da ansiedade, uma vez que as pessoas engrenam por um caminho de preocupações, medos, receios e constante vigília sobre aquilo que pensam, sentem ou fazem. Há uma auto-consciencialização das coisas enorme, fazendo assim com que a pessoa se sinta absorta aos seus próprios processos internos”. Quando a mente se cansa psicologicamente e emocionalmente a pessoa pode experimentar estranhos sentimentos de distanciamento do mundo à sua volta e de si mesmas, como se tudo fosse um sonho.

Isso pode acontecer quando alguém perde um ente querido, quando se passa por um acidente, ou qualquer choque emocional. Trata-se de um mecanismo de defesa do corpo para nos proteger dos efeitos do stress prolongado, quando a mente é bombardeada com pensamentos de preocupação e se torna-se fatigada.  Isto normalmente é temporário e não causa nenhum mal. Quando a pessoa supera o processo traumático, a despersonalização/desrealização diminui e/ou desaparece. O apoio das pessoas mais próximas é importante e essencial para que a mulher consiga lidar bem com a situação.

 Quando a gravidez e o puerpério são vivenciados em circunstâncias de stress extremo e prolongado a mulher pode vivenciar episódios de ansiedade como  foi o meu caso. Descobri a minha gravidez quando estava próximo do aniversário de 1 ano da morte da minha mãe, o que já me deixou um pouco sensível. Durante a gravidez nós recebíamos muitas visitas inesperadas e prolongadas em qualquer horário do dia ou da noite e isso me impedia fazer as minhas atividades e de descansar.

Três meses depois que a Julia nasceu, quando eu achei que íamos finalmente ter um pouco de calma, precisamos nos organizar para mudar do apartamento onde morávamos e por pressão de algumas pessoas próximas acabamos por escolher um imóvel que não nos identificamos, num bairro que não gostamos. Tudo isso fez com que perdêssemos totalmente a nossa identidade. De repente nossa vida tinha mudado radicalmente. Tantas mudanças não nos fez bem. 

Para mim foi mais difícil ainda, pois além de ter que me adaptar à nova realidade de que eu era mãe, perdi contato com tudo o que antes fazia parte do meu mundo. De repente eu não tinha mais mãe, havia me tornado mãe e me encontrava em um lugar totalmente estranho para mim. Foi aí que a se manifestou a despersonalização/desrealização. Passei vários meses sem entender porque eu estava me sentindo daquela forma. Eu me negava a acreditar que não havia uma explicação lógica para o meu estado emocional. Eu estava tão feliz por ser mãe, mas ao mesmo tempo sentia uma apatia tão grande em relação ao mundo, como se tudo fosse irreal, parecido com um sonho. Passei a pesquisar até encontrar uma explicação e a partir daí passei a lidar melhor com isso, pois entendi que tudo o que eu sentia era o resultado de tantas mudanças e emoções intensas que vivenciei em tão pouco tempo.

Posso afirmar que sempre que nasce um bebê renasce uma mulher mais forte e mais determinada. Como eu disse antes,  acredito que a maternidade pode ser uma experiência de retorno a si própria e um processo  de auto-conhecimento e foi exatamente a maternidade que me ajudou a superar essa fase. Porque quando a Julia nasceu percebi que aprendi muito mais com ela do que ensinei.  Cultivar esse vínculo e passar mais tempo com ela foi determinante. O mais importante é que o impacto inicial da maternidade, principalmente quando vem junto com algumas dificuldades, passa e aos poucos vamos reorganizando a vida. A maternidade, sem dúvida, dá muita força e determinação à mulher, que acaba se conhecendo, se reencontrando e se transformando numa pessoa melhor, mais madura e mais plena.